“Eu quero que o filme registre esse nosso repúdio a quaisquer sistemas de governo.”
“Nenhum presta para o pobre.”
Eu diria que a maior síntese da obra está no seu próprio título e em seu pôster. Quando nós espectadores finalmente mergulhamos na experiência, o aprofundamento é quase sufocante, a forma como Coutinho elabora a distinção entre tempo e espaço aqui é impressionante: dois contextos distintos que se conectam pela tragédia, pelo autoritarismo e pelos traumas que permanecem.
Como bem pontuado pelo Matheus Fiore:
“O documento sobre o que poderia ter sido o cinema brasileiro não fosse a ditadura e sobre como ainda pudemos encontrar tesouros em meio aos escombros.”
É exatamente sobre isso, a obra encontra beleza na tragédia, na injustiça e na própria potência do cinema enquanto arte, a fusão entre um filme inacabado e as marcas da perseguição política que assolou diversas famílias cria algo singular e devastador.
A história da Elizabeth Teixeira é, infelizmente, apenas um entre tantos casos de sua época, mas é justamente nessa individualidade que reside sua força universal, o descontentamento político, a desumanização promovida por um sistema que tratava pessoas como descartáveis, o medo constante, a perda prematura do marido, a necessidade de romper os laços maternos com os próprios filhos para protegê-los, o anonimato forçado no exílio interno, tudo isso constrói uma dor acumulada que molda sua existência.
O momento em que Elizabeth desaba em lágrimas, ao ouvir o apoio e a admiração de suas amigas e vizinhas, é devastador, ali, percebe-se o peso de quase duas décadas de sofrimento contido, finalmente encontrando uma fresta para se manifestar, é um dos instantes mais poderosos que o cinema pode proporcionar.
A fragmentação de uma família, a violência estrutural contra os camponeses e a maneira como o cinema eterniza essas experiências ultrapassam qualquer tentativa simplista de definição, trata-se de algo que vai além da conscientização, é memória, é resistência, é arte em seu estado mais puro e como somente o cinema proporciona.
Sinto que, quanto mais tento descrever, mais me aproximo da prolixidade, mas talvez isso seja inevitável diante de uma obra dessa magnitude. É um misto de emoção e admiração que reafirma o motivo pelo qual amo o cinema.
“Coronel, aqui não tem nada de comunista, cubano nem nada. Tem um povo morrendo de fome, doente, sofredor, como eu mesmo tô doente.”