A Dama na Água: Uma fábula sobre acreditar na delicadeza do fantástico.A Dama na Água é sobre retornar à infância e se permitir acreditar em algo que, se à primeira vista pode parecer enfadonho e risível, se revela, em verdade, fantástico. E é claro que muito dessa fascinação se deve ao trabalho de um dos melhores contadores de histórias da atualidade, que cria este conto fabular com tanto esmero.
O conto se inicia com uma voz em off narrando acontecimentos passados por meio de pinturas rupestres revelando a relação dos seres da água com os seres da terra. Foi dito que, com o passar dos séculos, essa conexão se perdeu. Agora, ambientado no presente, o zelador Cleveland encontra Story, uma narf vinda do mundo da água. Conforme o tempo passa, Cleveland descobre que Story é na verdade uma personagem que faz parte de um conto de fadas, e a função do zelador é de ajudá-la a retornar ao seu mundo. Story é um ser que transparece pureza e uma inocência infantil, desprovida de qualquer malícia. A delicadeza, o modo meigo e a doçura na comunicação, a confiança em Cleveland, o momento em que ela se escora em Cleveland e dorme como se fosse uma criança; são todos momentos que transbordam pureza e mostram como o fantástico se comporta em um contexto realista. No início do conto rupestre foi anunciado que o homem esqueceu como escutar e se comunicar com esses seres de outro mundo. Essa incapacidade do ser humano de se comunicar com os seres da água faz com que sejam necessárias pessoas para exercerem funções específicas do conto antigo. São elas: guardião, intérprete, curador, símbolo, escritor e o grupo. No entanto, para descobrir o que se deve fazer para Story voltar ao seu mundo, Cleveland precisa voltar à infância.Ele precisa agir como uma criança, sujar a boca com leite e se deitar para escutar a história de ninar. Isso deve ser feito a pedido da senhora coreana, que percebe que a atitude madura de Cleveland impede a compreensão; assim, a alternativa é retornar à infância.
É curioso como existe uma certa ironia em como os aspectos do cotidiano são representados. Um menino lê o futuro em caixas de cereal e um homem lê palavras proféticas em um jogo de palavras cruzadas. E o mais interessante disso é que por mais que tais aspectos sejam de certa forma ridículos, a construção dramática e o tom fabular com que Shyamalan conta aquilo é tão emocionante que se torna crível.
Há uma metalinguagem no filme que surge como uma resposta as críticas negativas que Shyamalan vinha sofrendo. O personagem que representa isso é Harry, um crítico de cinema arrogante que racionaliza a arte e a reduz a fórmulas. Ele tem um olhar cético e limitado, que o impede de ver o brilho no simples e que enxerga atos de amor como banais e sem sentido. O preço pela recusa à fantasia lhe custa caro. Seu convencimento de que tem total domínio das estruturas da ficção é logo invertido. Sua morte não é um mero ato vingativo de Shyamalan contra a crítica; é um convite para que abandonem o ceticismo e que, assim, possam enxergar o belo no banal.
O prédio funciona como um universo próprio. Antes havia moradores afastados que trocavam poucas interações entre eles, mas a vinda de Story muda isso completamente. É como se a magia do fantástico tivesse o poder de unir diferentes culturas em prol de um único objetivo. Habitam ali pessoas de costumes e origens diversas: a família coreana, os jovens latinos, o crítico de cinema e um rapaz que malha apenas um lado do corpo. Todos vivem separados, mas, à medida que Cleveland precisa de ajuda, eles se unem porque todos ali acreditam. A força da crença no conto foi tamanha que foi capaz de unir aqueles que, se agora estão unidos movidos por um único propósito, antes sequer conversavam. No momento em que estão todos reunidos tentando salvar Story, um homem fala: “Não está certo. Não podemos ficar brincando de conto de fadas. Eu quero acreditar mais que muitos. Eu quero voltar a ser criança. Eu tenho que acreditar que há muito mais que o horror que nos cerca, mas uma hora nós temos que parar.” E, pouco depois, no momento em que Cleveland descobre que na verdade ele é o curandeiro e hesita em curar Story, o mesmo homem que estava desacreditado diz: “Cale a boca e tente.” O homem que queria acreditar conseguiu. É por isso que [](https://youtu.be/KjhAKyiRL0k?si=Rjmnt_ap4VzIyr2w)
esta cena é a síntese do que há de mais belo no filme: estão todos juntos acreditando no conto de fadas. O poder da fé foi capaz de curar a dama da água.