“E ao vasculhar seus arquivos, descobrimos imagens não apenas de vulcões, mas de paisagens que ninguém jamais filmou como eles. Algumas possuem uma qualidade de sonhos, quase como um apocalipse bíblico, onde pedras chovem do céu.”
Ao assistir esse documentário, tive a sensação de estar diante de indivíduos que representam de forma quase pura, o significado do Amor Fati do Nietzsche.
É compreensível que muitos considerem estranho, ou até insano, o fato de existirem vulcanólogos que arriscam constantemente suas vidas para prever erupções e minimizar riscos a populações próximas, trata-se obviamente, de uma profissão que sintetiza de maneira brutal a própria mortalidade, mas, no caso de Maurice e Katia, essa relação parece seguir um caminho diferente.
Ambos dedicaram suas vidas aos vulcões de forma quase literal, viviam em constante proximidade com a morte e jamais aparentavam recuar diante do perigo, o que reforça a ideia de que estavam não apenas conscientes, mas também “conformados” com a fatalidade que poderia atingi-los a qualquer momento, ainda assim, há algo que vai além dessa aceitação, um certo fascínio profundo.
Esse fascínio não se limita aos vulcões em si, mas se estende às suas causas, às suas consequências, ao instante anterior à erupção e à calmaria que se segue à destruição, o trabalho do casal transcende a ciência e adentra um campo quase filosófico e existencial, uma contemplação simultânea da morte e da vida.
Nesse sentido, o fato de ambos terem morrido em uma erupção não soa como uma ironia trágica, mas como uma coerência absoluta disso, eles morreram fazendo exatamente aquilo que definia suas existências, não há na construção do documentário, qualquer sensação de remorso ou negação, ao contrário, o que se percebe é uma integração quase total entre viver e morrer, como se ambas as dimensões fossem indissociáveis.
O filme enfatiza com precisão a estética do sublime, a destruição que gera beleza, o fascínio que nasce do perigo, o amor pelo trágico, a cada novo estudo, a cada nova imagem capturada, parece que Katia e Maurice se aproximam de um propósito que sempre esteve ali, latente, o espectador por sua vez, é conduzido a compartilhar dessa experiência, tememos a imprevisibilidade e a violência da natureza, mas, ao mesmo tempo somos hipnotizados por sua força e grandiosidade.
A diferença é que, ao contrário do casal, talvez não estejamos dispostos a entregar nossas vidas àquilo que mais nos fascina, há, contudo, uma questão importante, para que o Amor Fati, como proposto por Nietzsche, se concretize plenamente, seria necessário um grau de consciência filosófica desse ato, um “sim” deliberado à vida em todas as suas dimensões, e não sabemos se os Krafft pensavam dessa forma, é possível que essa leitura seja apenas uma projeção nossa, uma lente interpretativa.
Ainda assim, talvez exista aí o aspecto mais interessante, talvez eles não estivessem aplicando Nietzsche em suas vidas, talvez Nietzsche estivesse desde sempre descrevendo pessoas como eles.