Hedda encontra força justamente onde tantas adaptações falham: não tenta modernizar Hedda Gabler superficialmente, mas reorganizar suas tensões. Ao deslocar a história para os anos 1950, Nia DaCosta transforma repressão, desejo e poder em algo sufocante. A relação entre Hedda Gabler e Eileen Lovborg existe sob um véu constante, nunca plenamente dita, mas perceptível em cada silêncio e disputa emocional. O filme também adota uma reconstrução racializada daquela elite aristocrática sem transformar essa escolha em objeto de tensão ou crítica, algo que normalmente me afastaria pela sensação de reimaginar relações históricas de poder sem realmente confrontá-las. Aqui, porém, DaCosta desloca o centro dramático para gênero, desejo e performance social, sustentando essa decisão dentro da lógica quase teatral do filme.
Hedda Gabler funciona como puro elemento caótico. Seduz, manipula e destrói menos por objetivo do que por necessidade de domínio, como alguém incapaz de aceitar que o mundo exista fora de sua influência. O mais cruel é que ela parece consciente da própria ruína. Quanto mais as peças se aproximam da posição que deseja, mais destrutiva se torna. Tessa Thompson está fantástica ao sustentar essa mistura de sedução, dissimulação e vazio emocional sem nunca perder o magnetismo. Já Nina Hoss domina o filme sempre que aparece, especialmente na cena da biblioteca, onde mesmo no seu esrado mais vulnerável, domina o local cheio de homens intelectuais, uma das mais memoráveis do filme.
O que mais surpreende é a coragem de DaCosta. Em vez de transformar a peça em prestígio acadêmico engessado, ela a torna sensual, inquieta e perigosamente instável. Nem tudo funciona o tempo inteiro, mas justamente por ousar tanto, o filme encontra uma intensidade rara em adaptações contemporâneas. Não é difícil entender por que apareceu em tantas listas de filmes esnobados de 2025.
Hedda encontra força justamente onde tantas adaptações falham: não tenta modernizar Hedda Gabler superficialmente, mas reorganizar suas tensões. Ao deslocar a história para os anos 1950, Nia DaCosta transforma repressão, desejo e poder em algo sufocante. A relação entre Hedda Gabler e Eileen Lovborg existe sob um véu constante, nunca plenamente dita, mas perceptível em cada silêncio e disputa emocional. O filme também adota uma reconstrução racializada daquela elite aristocrática sem transformar essa escolha em objeto de tensão ou crítica, algo que normalmente me afastaria pela sensação de reimaginar relações históricas de poder sem realmente confrontá-las. Aqui, porém, DaCosta desloca o centro dramático para gênero, desejo e performance social, sustentando essa decisão dentro da lógica quase teatral do filme.
Hedda Gabler funciona como puro elemento caótico. Seduz, manipula e destrói menos por objetivo do que por necessidade de domínio, como alguém incapaz de aceitar que o mundo exista fora de sua influência. O mais cruel é que ela parece consciente da própria ruína. Quanto mais as peças se aproximam da posição que deseja, mais destrutiva se torna. Tessa Thompson está fantástica ao sustentar essa mistura de sedução, dissimulação e vazio emocional sem nunca perder o magnetismo. Já Nina Hoss domina o filme sempre que aparece, especialmente na cena da biblioteca, onde mesmo no seu esrado mais vulnerável, domina o local cheio de homens intelectuais, uma das mais memoráveis do filme.
O que mais surpreende é a coragem de DaCosta. Em vez de transformar a peça em prestígio acadêmico engessado, ela a torna sensual, inquieta e perigosamente instável. Nem tudo funciona o tempo inteiro, mas justamente por ousar tanto, o filme encontra uma intensidade rara em adaptações contemporâneas. Não é difícil entender por que apareceu em tantas listas de filmes esnobados de 2025.