Escrevi e reescrevi diversas vezes essa análise, e em nenhum momento senti que ela atingiu um nível à altura da obra.
Gosto muito de como Texhnolyze se propõe a ser um anime experimental, quase que inteiramente sensorial, não é necessário compreender tudo o que ocorre para apreciá-lo, embora seja plenamente possível traçar paralelos filosóficos densos (eu mesmo o fiz), seja com Schopenhauer, Spengler ou Nietzsche, inclusive, enxergo a chamada “Aliança da Salvação” como uma espécie de hermetismo distópico e deturpado.
Trata-se de uma obra que se coloca como uma incógnita dentro do próprio meio dos animes, rompendo com padrões narrativos convencionais, e isso por si só já justificaria a experiência, ainda assim, tive dificuldades com o ritmo deliberadamente lento na primeira vez, a série leva seu tempo para desenvolver cada elemento, a solidão rotineira e vazia de Ichise, o início da trajetória de Yoshii e o perambular aparentemente sem rumo de Ran.
Esses elementos se entrelaçam gradualmente em duas estruturas narrativas distintas, do episódio 1 ao 10, temos uma obra quase inteiramente contemplativa e padronizada, centrada em atmosferas e fragmentos, e do episódio 11 ao 22, há uma intensificação dramática, com maior clareza nos conflitos e nas consequências.
Em meio a disputas mafiosas envolvendo a Yakuza e outras facções, e ao processo de adaptação de Ichise às suas próteses texhnolyzadas, assisti a obra simultaneamente a leitura de O Mundo como Vontade e Representação, o que agravou mais minhas reflexões.
A percepção aqui é fragmentada, instável e manipulável, a realidade é de difícil apreensão tanto para os personagens quanto para o espectador, o espaço físico deixa de ser apenas um cenário e se torna experiência perceptiva sensorial, e é nessa contemplação que emerge a “vontade” schopenhaueriana, irracional, cega e incessante.
Ichise personifica essa vontade, sua existência é movida por impulsos primitivos, sobrevivência, violência cíclica, repetição sem finalidade, ação sem compreensão, um mundo como representação decadente em contraste com uma vontade como força central, quase uma entidade parasitária intrínseca ao humano.
Os conflitos entre facções revelam-se disputas vazias por um falso controle, personagens como Keigo Oonishi tentam conter o colapso iminente, mas são sugados pela própria estrutura que tentam preservar.
O transumanismo surge inicialmente como privilégio de classe, uma vantagem restrita a poucos mas se degrada progressivamente até culminar nos “Shapes”, formas finais de uma evolução antinatural, que buscam a perfeição através da própria deformação.
Inclusive, eu preciso elogiar o quão bela são as artes do Yoshitoshi Abe, eu o já conhecia desde Serial Experiments Lain, e notar o seu retorno justamente em uma obra tão complexa quanto aquela me causou uma alegria genuína, existe uma delicadeza acompanhada de uma estranheza nostálgica, onde as cores e as composições ajudam a intensificar essa noção, são artes que remontam ao analógico, a falsa memória de um passado belo.
Admirar sua arte é retornar diretamente ao início dos anos 2000, ao mesmo tempo que você sente perder algo ao parar de observar, não sei, mas pelo menos comigo a arte de Abe me afeta de várias formas diferentes que variam de obra para obra.
Além disso, eu poderia citar o Mito da Caverna de Platão e me apoiar totalmente na simbologia mais batida sobre transcendência nos dias atuais, visto que Matrix sugou o que pôde sobre isso, mas decidi por pular essa metáfora justamente por achar que muitos já iriam naturalmente correlacionar com a obra.
Já as trilhas sonoras são absurdas, sendo a minha favorita, a
Blue Darkness - A Sleepless Town, porém todas, e repito, TODAS, são de uma qualidade impecável, e não apenas isso mas se mesclam com exatidão na proposta do anime, existe um teor melancólico com uma sensação de vazio que somente composições como essas poderiam expressar, ratificando um comentário no Youtube sobre:
''A beautifully desolate song for a beautifully desolate Anime...''
E a partir de agora irei adentrar e tentar formar minha percepção pessoal sobre os personagens principais dessa obra e como cada um deles me afetaram de diferentes formas:
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Ichise e a encarnação do protagonismo heróico-absurdistaTalvez um dos meus desenvolvimentos favoritos de personagem em toda a obra, o que é irônico quando paramos para analisar friamente a jornada de Ichise e percebemos que o mesmo passou de figura passivo/observadora a um elemento crucial na conclusão dessa obra, sendo ativo quando necessário a trama, e ironicamente, casando com a mensagem fatalista, em um mundo onde não aparenta existir livre arbítrio.
Decisões impulsivas e ocasionais dialogam com a estrutura narrativa proposta no foco exclusivo a contemplação e no corte abrupto dessa mesma sensação com a violência, muitos diriam que Ichise represente na melhor das hipóteses, uma modernização do herói absurdista de Albert Camus, representação essa, que segue inconsciente sobre tal significado, nunca o vemos verbalizando tal entendimento ou filosofia de vida, apenas o puro instinto primitivo de sobrevivência atrelado a essa força de vontade desconhecida, e o mais interessante, Ichise é inerente a cidade de Lux, seu corpo texhnolyzado necessita dessa inerência, além do mais, na ciência fictícia do anime, sem a proximidade do obelisco, as próteses texhnolyze não funcionam em seu perfeito estado e tendem a colapsarem com o tempo.
Levando em conta a importância dada ao obelisco como monumento a imagem e semelhança humana, o constante foco da obra na própria estrutura que rasga o céu ilusório da cidade, não se trata de uma simplória simbologia, mas do que gira em torno da narrativa e do anime em geral.
No gnosticismo, o obelisco era visto como um símbolo de ascensão da alma (ou consciência/conhecimento) que uniria o homem ao divino, sendo um pilar que aponta diretamente ao céu, a conexão personificada do mundo imperfeito com o Pleroma, mas isso tudo é uma ilusão, uma subversão do que conhecemos, assim como boa parte dos significados que rondam a obra, a transcendência é o último estágio de degradação física e moral humana, e toda a mensagem de Texhnolyze culmina exatamente nisso, e quem melhor para representar essa última força de vontade e esperança ilusória do que Ichise? quem seria melhor do que o personagem que por anos carregou um frasco com células mortas da própria mãe? alguém que foi mutilado vivo e permaneceu tentando subir escadas sucessivamente.
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Yoshii e o caos necessário como forma de estabelecimento da ordem em uma apática sociedade, um Anti-Übermensch.
Talvez a figura mais controversa do anime? difícil elaborar, visto que existe o pai de Haruhiko, mas enfim, tentarei explicar o porque Yoshii se tornou o meu personagem favorito de todos os animes sem necessariamente causar spoiler e estragar a sua experiência, mas a função narrativa do personagem é muito mais profunda e complexa do que aparenta.
Você verá os 10 primeiros episódios e pensará nele de uma forma que tende a mudar conforme você acabe o anime, ele é quem teoricamente fará a narrativa se desenvolver na cidade de Lux, e a melhor parte sobre isso, mesmo após descobrirmos sobre seu passado e a superfície, toda sua jornada se torna ambígua no fim, seria a sua função antagônica na obra uma resposta consciente ao tédio causado pela ''perfeição''? ou a mais pura inveja do que é falho? inveja e ganância de considerar válido uma série de ações que desencadearão no fim sistemático daquela cidade como conhecemos.
Eu realmente não sei como descrever esse personagem sem realmente adentrar em tópicos importantes e sinto que não seria capaz de descrever com perfeição o que sinto sobre, então deixaria um trecho das notas de Dostoiévski, ainda sinto que será insuficiente? sim, mas talvez seja uma forma simplória de resumir o personagem a quem não o conhece sem revelar demais sobre.
''O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor! Entretanto, eu mesmo quero dizer duas palavras à parte sobre isso. Não poderia ser, talvez, que ele ame tanto a destruição e o caos (bem, é indiscutível que ele às vezes gosta muito, não há dúvida) porque ele mesmo, instintivamente, teme atingir o objetivo e concluir o edifício que estava construindo? Como os senhores podem saber? Talvez ele ame o edifício somente de longe e não o ame de perto; talvez ele ame apenas o ato de construí-lo, e não viver nele, abandonando-o depois aos animaux domestiques, como formigas, carneiros, etc.''
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Ran como a figura profética e representação personificada da ''Chave Absoluta'' nas ciências ocultas.Talvez eu esteja atravessando o véu do limite aceitável em uma análise, mas que se foda, se permita viajar e agraciar a arte da mesma forma.
O que seria essa chave absoluta? se trata de um conceito extremamente poético e filosófico de Éliphas Lévi, seria então, uma união entre ciência e fé, dando acesso a compreensão entre passado, presente e futuro e uma leitura de como funcionaria a estrutura da realidade, e o que temos mais próximo disso no anime seria justamente a Ran.
Uma criança vidente que percebe padrões, dita o futuro como um fluxo imutável e entra em estado conformista após perceber o destino de Ichise, talvez a figura mais próxima de uma transcendência real naquele universo, não se desfazendo do corpóreo, nem o substituindo por máquinas, mas alcançando um nível quase ultraterreno, e a chave absoluta normalmente representaria essa personificação do que causará a liberdade individual daquele ser e o transformará a um nível elevado em que está, mas Ran não transcende literalmente na obra, ela possui a ''gnose'', e acaba por ser uma agente inativa após isso, ela é silenciosa e a mais conformista em toda a obra.
A noção de saber tudo sobre todos ao olhar em seus olhos e ver os seus futuros elimina qualquer possibilidade de escolha e erro, elimina o livre arbítrio, esse conhecimento em excesso culmina a paralisia total de ações, diferente de Ichise que age sem sequer cogitar o porquê, e de Yoshii que rejeita o sentido que lhe foi imposto, Ran entende absolutamente tudo, mas prefere não agir, pois sabe que não mudará nada, talvez o meu fato favorito de toda a obra seja como até o esoterismo tende a cair a um pessimismo, a impotência, ao nada...
Eu gostaria também de adentrar sobre as figuras que representam essas disputas de poder faccional na história, como o próprio Shinji ou o Keigo Oonishi, mas sinto que iria tornar a review desnecessariamente longa (o que já sinto neste exato momento), então, em respeito aos que dedicaram o seu tempo a ler esses devaneios de uma mente adoentada, talvez no futuro eu dedique espaços extras a analisar cada personagem secundário dessa obra, visto que absolutamente todos me causaram interesse e curiosidade (menos você Hal, vai se foder)
A Superfície no anime talvez seja a ambientação mais chamativa e intrigante de toda a obra, em comparação aos becos e ruas de Lux, onde o que mais vemos e e sentimos, se trata de uma solidão mais acolhedora e bruta, ao mesmo tempo, diferenciando-se da superfície, onde essa solidão nos impele, onde há frieza mesmo em uma cidade banhada pela luz solar, ela é vazia, ao mesmo tempo que não é, ela é utópica ao mesmo tempo que representa uma distopia.
É aqui que vemos a fragilidade da perfeição, ela não existe, se trata apenas de um ponto de vista diferente do que é imperfeito, a humanidade buscando incansavelmente transcender seus limites físicos e emocionais, atingindo uma forma quase indescritível, onipresentes e apáticos, apenas fantasmas vivendo e revivendo costumes de quando eram ''imperfeitos'', essa transcendência nada mais é do que reviver a nostalgia da simplicidade.
A utopia da superfície em Texhnolyze é assustadoramente real, não no sentido literal de termos humanos que transcenderam a um nível de onipresença, mas a justamente encarnarem esses fantasma, o físico se torna cada vez mais distante, dando lugar ao virtual, a representação mais simples de lógica, aos zeros e uns, a utopia aqui é um pesadelo absurdo, inalcançável e falso, onde os autores demonstram que nunca devemos tentar alcançar o que não precisa ser alcançado, pois isso não evitará a nossa iminente extinção, ela já começa metaforicamente na suposição da ideia de que para sermos melhores e perfeitos precisemos abdicar dos nossos defeitos e erros, defeitos esses que nos fazem humanos, nos fazem vivos, perder isso é perder parte fundamental de si, é abdicar imaturamente de si, é recusar a si, somos nosso próprio Demiurgo.